Tudo o que sei e tudo o que não sei sobre as X-Cetra

 




É bem provável que o que vos conto de seguida seja revelado de um modo mais ou menos caótico. A euforia nunca é a melhor amiga da vontade de contar uma história de maneira organizada. O que acontece é que ter uma peça como “Summer 2000”, compilação das X-Cetra na Numero Group, atirado para o interior do meu fascínio por discos é quase como largar uma granada num armazém de obsessões pessoais. Tudo explode quando “Summer 2000” começa a bater forte (e acreditem que bate) e, com esses estrondos, surgem tantas certezas como novas e inquietantes perguntas, que não me largam a cabeça ultimamente. 

 

Entre as certezas há uma que deve ser destacada: navegar pelas franjas da outsider / real people’s music (música em geral genuína, feita de modo caseiro e à margem das imposições da indústria) pode muitas vezes ser uma tarefa penosa e desgastante (nem tudo o que é “fora” é bom), contudo existirão sempre jóias como “Stardust” (álbum único das X-Cetra e a base desta compilação) que acabam por compensar todos os esforços nessa demanda. São discos como “Stardust” que ajudam a renovar a crença de que há sempre mais um tesouro perdido por encontrar no virtualmente infinito universo dos lançamentos musicais. É com milagres como este que a chama do “digging” se renova e conduz a mais descobertas (embora esta surja-nos com todo o trabalho já feito pela mão da Numero Group, que costuma ter um faro excepcional para estas preciosidades mais rebuscadas). 


Mas afinal que disco é este que brilha misteriosamente nas linhas dos parágrafos anteriores como a mala no “Pulp Fiction”? É-me difícil situá-lo na música pop da viragem de milénio (até porque não sei muito sobre o assunto), mas “Stardust” (e “Summer 2000” por arrasto) tem todo o potencial para ser um marco na pop mais inusitada e altamente improvável deste século. Ou então alguém que partilhe comigo outros discos perfeitamente viciantes que tenham resultado da colaboração entre quatro crianças (meninas californianas entre os 9 e os 12 anos), os pais de duas delas e um músico alemão (Künstler Treu), que tudo fizeram de uma forma amadora e underground. Não me ocorre de momento algo vagamente semelhante e muito menos ainda se pensar nos contornos biográficos aqui envolvidos. Quando aqui se fala de uma conduta amadora como modus operandi das X-Cetra, isso contudo jamais deve ser confundido com desleixo ou pouco engenho (embora a voz de uma das miúdas pareça cansar-se de dizer todas as palavras na repetição da mesma frase na fantasmagórica faixa “Another Girl”). O que “Summer 2000” nos prova, depois de uma ou outra escuta, é precisamente o contrário: estas canções soam muito mais certeiras do que o que normalmente esperiariamos de um disco concebido para ser lançado em cd-r e distribuído por umas quantas pessoas.

 

E como é que se explica que seja tão universal o appeal de um disco que à partida estaria destinado a ser escutado num circuito altamente fechado (o das trocas em fóruns online e etc.)? Será que se explica? Terá sido apenas sorte? Encontrar uma ou duas ótimas faixas num álbum pode ser atribuído à sorte - depararmo-nos com oito faixas bem conseguidas (cada uma delas com potencial para escuta em repeat) e zero filler é que nunca pode ser apenas obra do acaso. Haverá aqui uma química entre figuras geniais que ninguém esperava que funcionasse tão bem? É difícil falar disso com certezas quando ainda há tanto por saber sobre as pessoas envolvidas (uma das vocalistas, Ayden Mayeri, é uma actriz bem activa em séries). O que mais me surpreende em “Stardust” é saber que tem todo o perfil do disco meramente curioso, mas a consistência de um clássico (como “Blue Lines” dos Massive Attack, por exemplo). Não era suposto um disco criado neste meio algo subterrâneo não incluir uma ou outra faixa descartável (“palha”). Escutamos os igualmente caseiros  (e aconselháveis) discos de Dwight Sykes na Peoples Potential Unlimited (outra label focada em desenterrar pérolas da “real people music”) e é inevitável escutarmos um pouco de “palha” aqui e ali. Não há “palha” na compilação de onze faixas “Summer 2000” e isso dá-lhe uma aura de fenómeno que ninguém anteciparia. 

 

Aliás, há tanto na música das X-Cetra que surpreende tal qual um fenómeno vindo de um mundo à parte (mesmo que fazendo total sentido aos ouvidos). Não consegui ainda absorver por completo que estas vozes de crianças soem ao mesmo tempo inocentes e ameaçadoras de um modo fantasmagórico (as frases repetidas em “Another Girl” ilustram perfeitamente essa oposição). Acabo por associar este factor mais assustador das X-Cetra ao feeling de filmes como “Shining” (1980) e “Children of the corn” (1984), em que as crianças são agentes do terror quando o normal seria representarem a inocência. Essa inversão de papéis é um recurso desconcertante do cinema de terror que, no caso de “Stardust”, acontece de um modo misterioso e uma vez mais algo inexplicável. O único álbum das X-Cetra reserva ainda tempo para o smooth banger “Speechless” (quantas bandas teriam vendido a alma ao Demónio por uma canção assim?) e para o party anthem “Summer 2000” que lembra vagamente os Beastie Boys e as suas velhas amigas Cibo Matto (que durante toda a sua carreira terão sonhado talvez em gravar um disco pop tão consistente quanto “Stardust”). Fica mesmo assim tanto por dizer sobre as X-Cetra. A internet já chama a isto sleepover core ou algo semelhante. Pouco importa descobrir o melhor nome para categorizar o brilhantismo atípico que aqui se escuta, na verdade. Todas as respostas e mil perguntas mais encontram-se na escuta desta que é a minha descoberta favorita deste ano (por recomendação da minha grande amiga Ana Farinha, que sabe bem o que é bom). 

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