Se vou à praia dos betos, isso faz de mim o quê?




É Impressionante a quantidade de acontecimentos e escolhas em que a nossa meia-idade atraiçoa a juventude. Eu cresci sempre na parte sul da Ericeira, mas a praia do coração achava eu que seria a do norte (Algodio) para sempre. Mas tantas dessas certezas da juventude vão caindo por terra à medida que o tempo passa. As praias aqui em competição só podiam ser as três principais: Sul, Pescadores (a mais central) e Algodio. Que me perdoem as pessoas super-móveis que também incluem S. Sebastião ou até mesmo Foz ou Matadouro (uau, isso seria underground). Nas poucas vezes que fui a S. Sebastião acho que, em pelo menos duas, fiquei a olhar para aquelas escadas como o James Stewart a ter vertigens no “Vertigo”. Não dá. Chegaram a dizer-me (ainda hoje não sei se é verdade) que seria a praia mais sex friendly da Ericeira, mas nem isso inverteu a minha aversão àquele canto cheio de sombra. Sorry not sorry. 

 

Portanto no que toca a praias principais por mim o assunto está fechado nessas três que já referi. Quando era mesmo puto lembro-me de ir parar muitas vezes aos Pescadores. Foi lá que a minha prima Rita me ensinou a boiar (algo que sempre adorei). Lá apanhei a minha primeira carreirinha em cima de um colchão de ar (proto-bodyboard pelo menos na Ericeira). Lá comi umas boas Bolas de Berlim sem saber que me estava a perder na droga do açúcar e fritos. Praia dos Pescadores faz parte de um tempo muito inocente em que o mais queres é mesmo brincar, rir, saltar, comer gelado e essas cenas. E isso também tem o seu peso no coração, claro, contudo essa praia foi a que alguém escolheu por nós (por ser a mais segura para crianças talvez) e não a por nós escolhida quando já podíamos tomar decisões. 

 

E com a juventude chega muitas vezes essa excitação de haver mais liberdade (ou não) em escolhas como esta da praia preferencial. Nessa altura acabei também por ser arrastado pelos primos mais velhos para o Algodio, mas podia muito bem ter seguido por outros caminhos se quisesse (e na verdade até segui ao ficar em casa a jogar videojogos tantas vezes, que goth). O Algodio nos 90s tinha mesmo qualquer coisa: uma sensação de familiariedade entre locais que tornava aconchegante a praia que seria certamente a mais ventosa e agreste das três (e a Ericeira consegue ser agreste!). Era uma praia de pessoas e não de negócio, e isso faz(ia) toda a diferença. 

 

Como explicar a vibe mágica do Algodio nos 90s? Não sei, seria demasiado complexo e chato descrever. Talvez soasse a “93 til infinity” dos Souls of Mischief, mas com sabor a Cornetto clássico ou de morango e com watersports para todos os gostos (campeonato de “rola” todo o verão). O que eu sei bem é que havia uma rivalidade fortíssima entre Praia do Algodio e Praia do Sul, por motivos igualmente complexos (e absurdos) de descrever. Praia do Algodio era dos locals, Praia do Sul era dos betos (intrusos vindos de Lisboa, Cascais, etc..). Isso reflectia-se numa maior tensão sentida nas disputas e atritos nas saídas à noite e por aí. Hoje, quase por regra, a Praia do Sul é a que mais frequento em todo o tipo de contextos (pequeno-almoço, sketching, chillar). Ou seja, o Miguel mais rebelde dos anos do Algodio de certa forma iria gozar com o de meia-idade mais conformado com as regalias do Sul (que são muitas), se ambos se cruzassem por aí numa linha temporal qualquer ou no Red Room. 

 

 

Na verdade, hoje em dia, quando passo junto do areal da Praia do Algodio, quase que tenho medo que me bata. Que me chame de “beto” e me mande um calduço para que baze dali. Eventualmente lá passo por perto ao ir almoçar ao Clube Naval ou olho cá de cima qundo chillamos ali junto ao muro com boa vista. Mas lá mesmo abaixo ao areal, onde namorámos tantas vezes (eu e praia), nunca me ocorre por vontade própria (até porque o acesso ao areal é super disfuncional). Algodio era para sempre, mas hoje quase não lá páro. É o que é. A vida dobra-nos das mais inesperadas maneiras. 

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