Burial, Lynch e s&m num só mergulho nocturno

 “I saw the light, man… it burns, forever”. Nunca esquecer que são estas as palavras que abrem o álbum “Untrue” do Burial, que as samplou de uma cena do “Inland Empire”, um dos mais incompreendidos filmes do Lynch (e também um dos seus mais hipnóticos). A mesma intro do Burial sampla a soundtrack do “Metal Gear Solid 2” num momento em que alguém (o protagonista Snake?) mergulha de uma ponte no vazio. A chama referida no sample pode representar muita coisa, claro, mas neste caso associaria-a àquela esperança de que em qualquer altura do mergulho no vazio (ou num infinito de ideias) seremos salvos (por quê exactamente? Isso só o coração de cada um é que sabe). 


O que o Burial nos seus álbuns e o Lynch nos seus filmes nos convidam também a fazer é que arrisquemos dar esse mergulho num vazio onde tudo pode acontecer (por via da imaginação) e lhes confiemos a atenção durante a duração dessas obras. De modo semelhante, um jogo como o “Metal Gear Solid 2” incita-nos muitas vezes a que arrisquemos “uma vida virtual” num mergulho que pode ser o total fracasso ou a única saída possível para progredir no jogo. 


Eu não sei quantas vidas temos nos filmes ou nos discos, mas no primeiro caso o terror psicológico infligido chega a ser tanto (e as dores tamanhas) que passa a ser difícil confiar a cabeça a qualquer realizador especialmente dado a mindfucks. Nunca confiei, por exemplo, no Gaspar Noé (partiu—me logo todo com “Irreversível) e perdi a confiança no Von Trier ao perceber que só lhe apetecia torturar. Com o Haneke acho que me reconciliei e hoje não espero que me faça mal. Mas, no que toca a mindfucks, rendi-me desde cedo ao Lynch  (para mim superior a todos os realizadores mencionados) e há muito tempo que lhe entrego incondicionalmente a cabeça em cada uma das suas viagens (desconcentrei-me do novo “Twin Peaks” porque mudei de casa a meio…). Confio muito no seu talento, sensibilidade e capacidade para me magoar com uma elegância (cuidado?) só mesmo ao alcance de quem sabe muito bem fazê-lo. Um pouco como um sado-masoquista se deixa cegamente nas mãos de uma dome, ao saber que esta é altamente capacitada nas suas artes. 


O Lynch pode fazer de mim o que quiser, porque até na perdição dos mergulhos que propõe acaba quase sempre por haver a “tal chama eterna”, que sobra como ténue esperança até nos recantos mais sombrios do universo do realizador (e esses são muitos). Lynch é obviamente um mestre do absurdo e da criação de labirintos cerebrais altamente desorientadores, mas acho que manteve sempre acesa essa faceta humana que fez com que nunca me sentisse completamente abandonado à minha sorte nos seus mindfucks trippy. Lynch esteve sempre connosco. Não era um cabrão que só quer magoar. E quando essa chama existe no mergulho total, é muito mais fácil mandarmo-nos de cabeça. 


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