Sou um snobzinho da Criterion, para que linha devo ligar?

Sim, confesso, a ligação que mantenho com a Criterion Collection, enquanto fã, desde o ano 2000, é daquelas coisas que despertou o maior monstro de snobismo de que me lembro em mim. Sei que o ano era 2000, porque foi nessa altura que a Criterion lançou a antologia de videoclips de Beastie Boys. Título esse que surtiu um enorme impacto pela originalidade e diversidade dos extras (alguns desses interactivos até) e naturalmente pela videografia de facto fantástica e vanguardista dos Beastie Boys (de quem dei por mim a desconfiar ultimamente por já dificilmente suportar o registo guinchado do Ad-rock). Mas o melhor é mesmo não falar muito mais da minha relação actual com os Beastie Boys ou ainda acabo a noite a receber ameaças de morte. 


O que eu queria mesmo dizer é que a qualidade de brinquedo fantástico que esse meu primeiro DVD Criterion tinha, levou-me daí em diante a apostar em mais títulos da Collection (que ninguém deve duvidar ser a mais rica e ampla do mundo). A curadoria da Criterion parecia satisfazer as minhas maiores necessidades (cult, clássicos, cinema curioso) e, sem dar por ela, já  tinha umas quantas dezenas de spine numbers da CC na fachada de umas quantas estantes do quarto. Quando passas dos 15 DVDs da minha linha, é bem natural que um dia os coloques por uma qualquer ordem lógica e aí já estás com um pé na ratoeira das obsessões e manias que surgem com ser colecionador de determinada coisa (perguntem aos colecionadores de vinho ou PEZ).


Com essas manias surgiu também a do snobismo. E como é que um snobzinho da Criterion fala com as pessoas? Pois bem, como qualquer outro tipo de snob: dizendo muita merda super irritante como se só a sua opinião importasse. A Criterion, com toda a sua ligação ao cinema arthouse, artilhava muito bem as frases feitas de um snob. “Para que quero eu esse lixo de edições que vem com os jornais?”, “Pá, essa merda de edição só traz o trailer como extra…”, “Ah, fixe, tens o “Star Wars” collector’s em dvd triplo…”. Estou certo que tirei dito estas precisas frases ou outras muito semelhantes enquanto a Criterion me subia à cabeça. 


Depois havia também quem gostasse de desmantelar o meu fanatismo religioso pela Criterion (olá, Mac) com perguntas e acusações (legítimas) como estas: “E se um filme que adoras não estiver na Criterion?”, “Os DVDs são super caros…”, “Ya, essa coleção é de respeito: tem o “Armageddon” e tudo…. (uma das nódoas históricas do catálogo). A verdade é que o fervor foi passando e acho que parei de acompanhar muito de perto (e comprar) desde que lançaram a grande caixa do Godzilla, nem tanto por isso (até porque adoro Godzilla da era Showa), mas porque o foco passou para o Channel com a coleção a passar a ser uma videoteca em stream. 


Foi apenas uma transição, na verdade, até porque permanecer assinante da Criterion me leva a falar da Netflix e Disney+ sempre com um cheirinho do snobismo mais acentuado dos anos de colecionador (um colecionador tem sempre qualquer coisa de cagão na verdade).  Contudo também devo dizer que passar a ter alguns gostos mais fétichistas, no que toca a cinema (eu adoro 80s e 90s deep sleazy e roman porn da Nikkatsu), e sabendo de antemão que esses dificilmente serão representados na Criterion (até porque estão cancelados), ajudou a que nos últimos tempos procurasse alternativas nos serviços de stream.No que toca ao cadáver desse snob mais activo da Criterion Collection, tenho-o vendido agora aos pedaços nos DVDs listados na minha página da Vinted. Desculpem se não coloquei no início o disclaimer alertando para o facto deste ser um post publicitário e vaidoso. Mas estamos na internet. Aqui tudo é publicidade e vaidade. 


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