Relato de um atropelamento em que a viatura foi o terceiro episódio de “Euphoria”


Eu chego sempre atrasado aos fenómenos. Tantas vezes, em conversas sociais, acho que toda a gente viu o cometa passar na noite passada menos eu. Existem fenómenos de gigante popularidade para os quais nunca encontrei tempo só mesmo porque nunca calhou. Nunca vi, por exemplo, “Game of Thrones” ou “Breaking Bad” sobretudo porque nunca encontrei o tempo para tal, e não porque me parecem, à partida, dispensáveis. Eu nem acabei ainda sequer a terceira season (event series) de “Twin Peaks”… A culpa só pode ser da falta de tempo. Portanto tanta merda só para dizer que só agora estou a ver “Euphoria”. Adoro por vezes partir algo acidentalmente para as séries, porque é a melhor maneira de ser surpreendido. Foi tão maravilhoso quanto doloroso cair no caldeirão de “Euphoria” por sugestão de uma amiga que sugeriu vermos a série.


Sendo que estou bem longe de saber muito sobre séries (a minha praia é mesmo filmes), seria só mesmo uma parvoíce total eu vir para aqui falar das melhores de todos os tempos e outras postas de pescada do género. Sei que, no universo HBO, amo “The Sopranos” e “The Wire”. É tudo o que posso dizer. Ah, posso dizer também que coloco a HBO acima de todas as outras produtoras de séries. Posto isto, eu, que nem percebo de séries, acabei o terceiro episódio de “Euphoria” precisamente eufórico por sentir que este só pode ficar entre os cinco melhores episódios que alguma vez vi a abrirem com aquela intro genérica e genial da HBO (aquele ruído branco seguido de um clarão, que, já agora, é uma masterpiece do design sonoro).


E por que motivos coloco esta peça televisiva num ponto tão alto? Em primeiro lugar por ser um verdadeiro furacão de intensidade que varre tudo à sua frente sem medos. Gaspar Noé não me choca desde que vi o “Irreversível” (o primeiro que vi da sua filmografia scandale) simplesmente porque já espero que me choque. Nada, por sua vez, me preparava para ser atropelado tão violentamente por este terceiro episódio da primeira temporada de “Euphoria”. Eu estava positivamente surpreendido e entusiasmado com a frescura da série até aqui, mas este terceiro é um daqueles murros no estômago que já faz com que “Euphoria” deixe a sua marca no meu histórico de embates fodidos.  



Se calhar não ando a ver suficiente televisão (uma vez mais admito), mas a cena em que a Kat fala com um sub, numa das suas primeiras sessões de videochat privado, deixou-me perturbado e de queixo caído, como poucas vezes ao ver ficção para TV (ou computador). Lá está, encontrar um momento tão cru e pesadão num filme do Korine ou Haneke seria de esperar. Dar de caras com este grafismo capaz de mexer com o estômago (e de modo prolongado), numa série da HBO, parece-me especialmente edgy. Mas de grafismo anda o mundo cheio. Pegar no grafismo e usá-lo com um impacto emocional devastador é uma habilidade bem mais rara e essa “Euphoria” consegue constantemente. 


Eu já nem me lembro ao certo de como levei o enxerto de porrada do episódio intitulado “Made you look” (que me fez de facto olhar para muita coisa com outro compromisso e perspectiva). Pode ter acontecido nos vários momentos em que o episódio (tal como a série até aqui) expõe exemplos flagrantes (e delirantes) de “masculinidade tóxica” (desde o jogo do “beber e despir” até à avalanche de informação a denunciar “dick pics” não solicitadas). Ou então foi só mesmo aquele monólogo avassalador do jogador de bilhar (para mim, por enquanto, é só isso) na altura em que tenta desmantelar as defesas emocionais de Rue com uma acutilância que faz doer (também porque surge de maneira brutalmente imprevisível). No final dessa cena, o jogador de bilhar atira fora a beata do cigarro e esse gesto até parece um “mic drop”, depois de “tudo dito” sobre as fragilidades de Rue, personagem central da série pela qual acho que é mais natural o público “sentir”. 


Isso do “sentir por” e desenvolver instintos afectivos é contudo uma opção de cada pessoa (ou uma armadilha em que cada uma cai de forma diferente). O que não falta em “Euphoria” são personagens ricos com que nos podemos envolver emocionalmente. Estou certo de que alguns rufias até se revêm naquele puto dealer que sabe tudo desde que seja dentro dos seus ramos de dealing. Eu nesta altura confesso-me deslumbrado com a emancipação online e goth da Kat que faria a Siouxsie Sioux orgulhar-se. Vai-me doer especialmente quando doer à Kat. Sei que a minha respiração vai ficar alterada nas próximas cenas intimistas decisivas para a Kat. E este tipo de ligação umbilical (desculpem-me o potencial foleiro da imagem) eu só sinto com os personagens daquelas que me parecem as melhores séries. Mas este arranque de “Euphoria” é excelente televisão, tal como Tiago Grila é um verdadeiro covarde. Disso eu tenho a certeza.

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