Apontamentos freestyle sobre canções: "Lovesong", Adele


Só hoje ouvi esta versão que a Adele fez para a “Lovesong” dos Cure. Nunca me decidi muito bem sobre o que achar da Adele e só a escuto acidentalmente, com excepção da “Skyfall” (muito por causa da grave pancada que tenho pelo tom épico das canções que abrem os filmes da série James Bond). A versão que a Adele faz do original dos Cure relembra-me aliás de alguns motivos pelos quais não atino muito com a cantora britânica: associo-a normalmente (e talvez por desconhecimento) a fórmulas demasiado fáceis para consumo massivo (e aqui é isso que acontece) e a sua voz pode atingir este e aquele tom, embora falhe quase sempre o alvo do meu coração (o juiz que tenho para a música mais romântica). A Adele não me toca. 


Na rendição que faz da “Lovesong”, a voz da Adele percorre alguns dos seus lugares mais previsíveis e reconhecíveis, mesmo que isso acabe por não favorecer ou prejudicar a canção em si. O que aqui se escuta é só mesmo a Adele a cantar a partir da prisão da sua própria fórmula (tal como acontece com tantas estrelas pop que pouco ou nada arriscam). O que é estranho  - e ao mesmo tempo interessante - neste caso em especial é verificar que a voz da Adele se adapta surpreendentemente bem a um tema que, ao querer ser muita coisa em simultâneo, acaba por não ser nada em concreto. Embora esta condição de amálgama muito radio friendly possa soar a maldição junto de ouvidos mais arrojados, não deixa de ser também a farda de serviço com que as canções pop para massas convivem muito bem. 


A “Lovesong”, na rendição da Adele, parece até especialmente confortável nessa sua vontade de “ir a todas”: abre com aquela guitarra acústica acolhedora e intimista que as rádios veneram (e que se instalou também com “You’re Beautiful”, do James Blunt), atira-se a uns arranjos de cordas mais grandiosos (pela mão do arranjista David Campbell), ainda tem espaço para qualquer coisa de bossa nova ligeirinha e, então, eis que a certa altura decide ser uma canção reggae para quem acha que não gosta de reggae (ou normalmente não o escuta). E é por gostar tanto deste tipo de canções, que trazem o reggae para a pop de alcance astronómico (tal como acontecia com os Culture Clube ou os Police), que acabo por dedicar todo este tempo a uma faixa da Adele. 


Portanto sem ser a melhor canção do mundo (longe disso), “Lovesong” pela voz da Adele revela pelo menos alguns aspectos interessantes através da sua ligação ao reggae. Ao transformar a “Lovesong” dos Cure num tema que, embora confuso, atraca no reggae relembra-nos de duas coisas importantes: 1) o ska e o reggae são uma parte totalmente determinante na formação do som distinto dos Cure; 2) alguns dos singles dos Cure talvez estejam muito mais a jeito de conhecer versões reggae do que possamos acreditar à partida (ocorre-me que "Kyoto Song" e "Close to me" teriam algum potencial, por exemplo). 


O que eu queria no fundo expressar é que me diverte sempre muito observar como o reggae se infiltra nos ouvidos de quem diz não gostar nada do género. Acho fantástico que algum público mais conservador e afeiçoado ao lado mais rock dos Cure possa pura e simplesmente recusar por completo o seu gosto por reggae, mas acabar por desfrutar de alguns dos seus aspectos nos discos da banda. Só uma grande banda como os Cure e a sofisticação interminável do Robert Smith podiam fazer conviver no mesmo universo musical dois elementos tão dispares como o reggae (a partir do ska, claro) e um rock de tonalidades sombrias (para não dizer góticas). E a masterclass que comprova tudo isto resiste ainda bem viva e sonante nesse álbum de estreia perfeito que é “Three Imaginary Boys”, dos Cure. Ou seja, o reggae resiste e existe sorrateiramente em tantos momentos da carreira longuíssima dos Cure, tal como pode aparecer depois como a orientação que salva um produto algo genérico e pouco memorável no catálogo de muitos da Adele. O reggae nunca morre. 

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