Cinco malhas de Sonic Youth em que a Kim Gordon basicamente manda nesta merda toda
Tenho ali algumas encomendas da Vinted por embalar e despachar, mas isso pode muito bem esperar se a prioridade for a Kim Gordon. Não tenho qualquer dúvida de que a Kim Gordon é e sempre será maior que a Vinted. Aliás, a Kim Gordon chega para meter no chinelo grande parte das bandas de dude rock que o Álvaro Covões traz até ao seu circo, em Algés, a cada ano.
Espero - pelo amor da santa - que os Sonic Youth jamais se voltem a reunir a jeito de aparecerem por aí num Alive ou inferno semelhante. Aos Sonic Youth admito quase tudo excepto um regresso nostálgico para amealhar dinheiro com o mito e a saudade. É na boa que o último concerto que deram no Coliseu de Lisboa não tenha - acho eu - incluído uma única faixa dos anos 90 (que me é especialmente querida), quando é evidente que esse foi um período pujante e sólido na discografia dos Sonic Youth. Hoje até consigo gostar mais dos devaneios beat e arty urbanos do “NYC Ghosts & Flowers”, mesmo que, na altura, fosse um decepcionante balde de água fria, depois de uma série inacreditável de discos determinantes no moldar do meu gosto musical durante a juventude.
Nesse processo de moldagem, os discos de Sonic Youth foram muitas vezes aquele sapato que dói nas primeiras vezes que o calçamos e que, depois dos pés se afeiçoarem à sua forma, não queremos mais largar. Isto não significa que os meus ouvidos gostem de calçar muitas vezes o “NYC Ghosts & Flowers” (talvez já esteja a espezinhar demasiado estas flores), mas certamente que convivem bem com as formas mais estranhas e ruidosas do álbum metamorfo que é “A Thousand Leaves”. Comprei este último numa loja de discos bem modesta, em Mafra, com dinheiro que os pais davam para almoçar e o investimento valeu bem a pena: ainda hoje me soa a um dos álbuns em que os Sonic Youth melhor conseguem equilibrar song crafting e o experimentalismo que é intrínseco na banda.
A minha apreciação do “A Thousand Leaves” existiu durante muitos anos numa bolha, dado que quase toda a gente que conhecia por aqui, nos confins do oeste, parecia ter desligado da banda precisamente nessa altura. Um amigo meu disse-me inclusive que os Sonic Youth pareciam estar a varrer o palco do Sudoeste, em vez de estarem propriamente a tocar, quando, em 98, trouxeram o disco até essa edição mítica do festival. Só muito mais tarde vim a falar com outro amigo (o Bruno Silva) sobre o que fazia de “A Thousand Leaves” uma “mood piece” (palavras acertadas do Bruno) e etc..
As relações que mantemos com os discos flutuam conforme os tempos (um pouco como as amizades e os amores), e esta que me liga ao “A Thousand Leaves” ajudou-me a alcançar a seguinte conclusão: as faixas vocalizadas pela Kim Gordon envelheceram melhor que as do Thurston Moore. Nada obriga ninguém a decidir-se entre ambos, mas, nestes últimos anos, é a voz da Kim Gordon aquela que mais gosto de revisitar. Por isso mesmo destaco aqui cinco das faixas, nos Sonic Youth, em que sinto que manda nesta merda toda.
“French Tickler”
“The Ineffable Me”
https://www.youtube.com/watch?v=u8X298CBdR4
https://www.youtube.com/watch?v=0LV5Iw76rQw
Parece haver tempo para tudo dentro dos 73 minutos de “A Thousand Leaves”. É um disco com zero pressa, não tem uma casa-âncora a que procure regressar. Dentro dessa eternidade cabe a Kim Gordon no registo agridoce alternado de “French Tickler” (fascinante faixa que tem qualquer coisa de Pixies no impacto do refrão e também de flower pop que aos poucos se vai desconjuntando para dar lugar a um monstro). Um pouco mais adiante a mother surge em total modo de empoderamento sexual com uma “The Innefable Me”, que me soa sempre a bota a pressionar o pescoço até onde pode (e a Kim pode muito).
“Becuz”
https://www.youtube.com/watch?v=AK4eTwy4XA8
Não compreendo o que me levou a subestimar a pura hotness dos Sonic Youth durante tantos anos. Talvez não tivesse a maturidade necessária para descortiná-la ou esse fosse um factor demasiado subtil para entender inicialmente. Contudo hoje tenho a certeza de que “Becuz” é das malhas mais sexy que conheço e muito disso deve ao mistério fantasmagórico da voz da Kim Gordon (sobre um instrumental hot as fuck também). Quase apetece foder com o reverb desta abertura impressionante de “Washing Machine”.
“Shadow of a doubt”
https://www.youtube.com/watch?v=aW1UvkvhKqE
Outro momento maior de toda a música vibrantemente sensual. Kim Gordon uma vez mais a soar como um espectro que incorpora todos os mistérios. Neste caso em particular todos os mistérios dos filmes noir e dos respectivos jogos psico-sexuais em que as pessoas se perdem. Não há perdição como "Shadow of a doubt".
“I love you Mary Jane” com Cypress Hill
https://www.youtube.com/watch?v=AXM_nDH2RvM
“Sugar come by and get me high”: são essas as únicas palavras cantadas em loop por Kim Gordon nesta faixa partilhado com os Cypress Hill. É mais do que o suficiente para esta malha ser um stoner banger perfeito e totalmente eficiente.
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