A “Milk of the Madonna” é fantástica e o verão de 2025 está irresistivelmente hot






Confesso que estava ligeiramente preocupado com as primeiras peças reveladas do quadro maior que haverá de ser “Private Music”, o próximo álbum de Deftones a ser lançado a 22 de Agosto. O primeiro single “My Heart is a mountain”, que por enquanto não me merece mais do que um “meh”, não me enchia de todo as estribeiras de quem espera que os Deftones abram os seus discos com grandes malhas. Estamos a falar de uma banda que tem uma colossal e muito emblemática abertura com “My Own Summer (Shove it)” no “Around the Fur” (aquele “tum tááá” da bateria parece o som da caixa de Pandora a abrir) e que mais tarde nos deu a explosão de “Diamond Eyes”, o extase imediato de “Swerve City” e recentemente a brilhante e quase Carpenteriana introdução atmosférica de “Genesis”. 


“My heart is a mountain” não tem qualquer manobra para competir com qualquer uma dessas por um único e crucial motivo: parece uma daquelas canções que uma qualquer banda a imitar os Deftones conseguiria, com algum esforço, criar. Tal e qual como a “Rape Me” dos Nirvana soa a canção que os Bush ou os Silverchair (ou outra réplica qualquer dos Nirvana) fariam num dia de sorte. Além disso, “My heart is a mountain” tem ali um qualquer tom de marcha militar que me irrita profundamente na maneira como sugere o avanço de um exército todo “american bad ass” (algo que nenhuma falta faz ao resto do mundo). O Ben Yosei discorda da minha apreciação da “montanha” e referiu inclusive que lhe pareceu uma abertura bem melhor que “Genesis”. Trocámos mais duas ou três mensagens sobre isso até eu ter decidido que cada um iria mesmo ficar com a sua. “My Heart is a mountain” parece-me das mais fracas primeiras faixas alguma vez presentes num disco de Deftones. 


Entretanto a face de “Private Music” revelou-se um pouco mais com o surgimento do artwork em que podemos ver a ilutração de uma serpente, que facilmente pode ter sido criada com recurso a uma ferramenta de inteligência artificial (o Chat GPT a fazer capas de Deftones é um pesadelo muito 2025). Não sou especialista em reptéis e perdoem-me se for outro bicho que não a serpente. É evidente que não espero que os Deftones atinjam os níveis icónicos de “Around the fur” ou “White Pony” a cada novo disco que lançam, mas a capa de “Private Music” parecia-me tão frouxa quanto o seu primeiro single de avanço. Nessa altura comecei a ver os pássaros de “Gore” por todo o lado e assustei-me com a possibilidade de um novo desastre no percurso dos Deftones. Com a chegada da serpente ao cânone visual dos Deftones acho também que a banda fica a apenas mais dois animais de poder criar um jardim zoológico só com as suas capas. 


Contudo o momento pertence por completo à serpente, mesmo que nada nestes seus primeiros avanços fosse suficiente para formar quaisquer opiniões definitivas. Caralho, o “Saturday Night Wrist” saiu há dezanove anos e ainda hoje não me consigo decidir por completo sobre esse profundo mistério no legado dos Deftones. Sei lá eu em que ponto colocarei “Private Music” na escala dos Deftones... Mas entre todas estas dúvidas que associo à banda há pelo menos uma certeza: o Nuno Dias é o melhor e mais célere informador que tenho sobre as movimentações no universo dos Deftones. Foi dele que, ontem à noite, recebi um link de You Tube que levava à escuta do “leak” de “Milk of the Madonna” (que já era o título que maior curiosidade me tinha suscitado ao percorrer a “track list” de “Private Music”). Abri de imediato o link para escutá-la no telemóvel e o que ouvi pareceu-me uma enorme e disforme barulheira. Achei que não estaria masterizada ou acabada. Já era tarde e decidi “vou guardar para ouvir amanhã em melhores condições”.

 

Eis que, durante a noite, o “leak” passou a ser a segunda faixa de “Private Music” oficialmente lançada pela banda (talvez precipitada pelo próprio “leak”) e, depois de escutar a faixa três ou quatro vezes, respirei finalmente de alívio: o verão pode ainda ser dos Deftones e eu já estou oficialmente enamorado pelo silvo da serpente. Se já escutei “Milk of the Madonna” umas dez vezes em repeat e já tento acompanhar o refrão cantando-o também, deve ser porque a adoro. E é óbvio que a adoro de um modo assolapado: “Madonna” mete a “montanha” num chinelo e esta pedalada, que soa mesmo ao melhor de “Koi no Yokan” (boa tatuagem, João Picanço), tem toda aquela energia sedutora que me deixa tantas vezes colado aos Deftones. Estruturalmente a faixa até me parece algo repetitiva, mas a vibe que emana comporta (de forma extremamente bem conseguida) toda uma série de sensações que me parecem essenciais na palete emocional dos Deftones. Tem aquela urgência adolescente e mágica da “Be Quiet and Drive (Far away)”, que parece sempre dizer algo como “que se foda tudo o que ficou pelas costas, dá-me a mão, o nosso amor começa agora”. Inclui também aquele fogo bouncy da “Swerve City” que meteu toda a gente a saltar (até eu!!) no fabuloso concerto no Primavera Porto deste ano. “Milk of the Madonna” deixou-me numa ansiedade total de a escutar em concerto, num daqueles momentos em que a banda já tem o público na mão e estamos todos a voar. A faixa é tremenda e eu pergunto-me: estes tipos têm mais de cinquenta anos e, ao décimo álbum, estão ainda a este nível? Na volta ainda apareço por aí no Natal com uma serpente bem foleirona tatuada no braço ou no meio das minhas boobs. 

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