Tarantino, fake news e desabafos do Avô Simpson


 

O que me diverte mais nesta recuperação do Tarantino é ver como alguns defensores afirmam - com tantas certezas  - que o mesmo é um dos melhores realizadores de sempre. Naturalmente que já sabemos da facilidade com que a internet dita estes absolutismos, no seu habitual estado febril todo-poderoso, mas aqui isso acontece de um modo tão gratuito que passa a ser irritante. Esta grandeza do Tarantino passou a ser uma espécie de fake news da critica de cinema e essa noção resiste desde que, em 1994, Tarantino realizou esse terramoto que foi de facto “Pulp Fiction”. 


Se é verdade que o cinema sofreu uma significante transformação com a descarga electrizante do “Pulp Fiction” (e outros filmes mais edgy da Miramax”) para não ser aborrecido por comparação, também me parece constatável que, depois desse, Tarantino jamais esteve sequer perto de recapturar o “zeitgeist” obtido com essa sua obra maior. Eu amo o “Pulp Fiction” e é de certeza o filme cujos diálogos melhor sei citar (e imitar até). Contudo essa minha ligação não deve adulterar o que acho do restante Tarantino (e dele só não vi “Hateful Eight”, porque “Django” esgotou toda a minha pachorra para os seus westerns). Que outros filmes magníficos fez o Tarantino além do “Pulp Fiction”? Só me ocorre o “Reservoir Dogs” e dou alguma margem ao “Inglorious Basterds” por ser divertido. 


Portanto para mim isso significa que o Tarantino falhou mais vezes do que acertou em cheio. E um grande realizador, nas minhas contas, precisa de acertar muitas vezes em cheio (mesmo que não chegue à eficácia irreal e quase total de gigantes como Kubrick, Cassavetes, Lynch). Parece-me muito sobrestimado esse sujeito algo parecido com o Miguel Ângelo dos Delfins e que poucos filmes tem feito nos últimos quinze anos. 


Ainda assim nada disto retira a Tarantino uma série de troféus e virtudes que nele reconheço e muito admiro: é um brilhante curador de bandas-sonoras (talvez o melhor até), tem um sentido estético sobrenatural no modo como aplica o seu conhecimento enciclopédico de exploitation e outros géneros bastardos, domina bem a sua fórmula (embora, tal como Wes Anderson, a tenha repetido até ao ponto de provocar náuseas). Tratar-se de um dos grandes realizadores de sempre, tal como afirmam os porta-vozes da internet, é que me suscita muitíssimas dúvidas. Aliás, acho que para descobrir “a careca” ao Tarantino e reparar no que tem de mais derivativo basta só mesmo ver “Massacre Mafia Style” e “Bonnie’s Kids” (excelentes peças de exploitation que só por si devem conter metade do DNA com que Tarantino criou o código genético os seus filmes). 


No fundo o que eu queria mesmo era recomendar esses dois favoritos e aqui estive a desancar no homem durante uma mão-cheia de parágrafos. Provavelmente vou uma vez mais soar a Avô Simpson, mas custa-me um pouco ver como estes novos influencers vendem muitas opiniões com uma facilidade bastante enganosa. Se calhar até posso vir a concordar com o que Tarantino diz sobre Paul Dano, mas que ele foi uma golpada muito bem vendida pela Miramax, no seu período mais manipulador e eufórico dos anos 90, é que já ninguém me tira da cabeça. 

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