Sobre o amor por filmes que me fazem chorar a rir




Adoro um bom filme que me faça chorar, mas gosto mais de um que me faça chorar a rir. Quanto ao que me faz normalmente rir, tenho o defeito (ou feitio) de muitas vezes preferir encontrar essa matéria onde é menos provável que apareça. Adoro quando o humor surge inusitadamente, como que aos trambolhões onde não era suposto. Muitas vezes isso funciona como um alívio enorme depois de várias horas mais ou menos aborrecidas. Essa fixação no humor inesperado acabou sobretudo por recair nos filmes que me fazem rir sem ser essa a intenção de quem os criou. Não é muito fácil explicar que, mesmo adorando rir com filmes, só muito raramente veja comédias (vejo uma em cada vinte filmes talvez), mas aqui fica este texto para tentar esclarecer isso mesmo.


Aproveito já agora a oportunidade para pedir desculpas às pessoas amigas que, com muito cuidado, me recomendam séries e filmes de comédia deste novo século. Tenho a certeza de que andarão por aí opções excelentes (porque também adoro “South Park”), mas o meu kink com TV é mesmo rir com aquele filme que surge de sabe-se lá onde e me provoca riso por um qualquer motivo. E neste caso os motivos podem ser os mais diversos: a poder do seu absurdo, o delírio proporcionado pelas suas imagens, o acidental, o seu cagar de alto em todas as lógicas possíveis ou a sua simples incapacidade de montar uma lógica, aquela sensação de What the Fuck (!!) que estala com algumas cenas. De alguma maneira sentir isso na companhia de amigxs intensifica a experiência e é nessas situações que por vezes dou por mim a chorar a rir. 


Melhor que explicar o efeito hilariante que o imprevisível de alguns filmes exerce em mim, talvez seja mesmo exemplificar isso referindo alguns filmes com essa capacidade. Nesse sentido, surgem-me aqui três títulos determinantes e curiosamente dois deles envolvem Jean Claude Van-Damme (que tem períodos altamente fascinantes na sua carreira). O primeiro deles é “Hard Target”, que, se bem me lembro, foi o primeiro filme a provocar-me riso com uma sequência que, em princípio, não teria essa intenção: aquela em que Van-Damme golpeia a cabeça de uma cobra que, a certa altura, esmorece num movimento nada credível (e isto numa grande produção realizada por John Woo). Foi como descobrir a falha num truque de ilusionismo fajuto (o da fantasia de “Hard Target”) ou que o cabelo de um personagem é afinal uma peruca: acidentes que podem muito bem provocar riso, até porque facilmente nos imaginamos no lugar de quem está a falhar.


Um nadinha mais adiante, nesta transição pessoal entre um olhar mais inocente e outro mais cínico sobre os filmes, surgem “Ninja Hunter” e “Knock-off” (uma vez mais Van-Damme). O primeiro desses trata-se de um entre dezenas de filmes de artes-marciais realizados de modo industrial (e desumano) por Godfrey Ho e destaca-se pela inclusão de um ninja que se transforma em tapete voador (sim, leram bem), numa cena a todos os níveis memorável. Eu não queria acreditar no que estava a ver e o corpo reage soltando uma gargalhada. As consequências do rir demais com filmes agravam-se no terceiro caso, “Knock-off”, que fez até com que sangrasse do nariz de tanto rir com a sua cena final, em que o vilão interpretado por Paul Sorvino (RIP) grita como se estivesse a ter o melhor orgasmo da sua vida, precisamente no momento em que morre no meio das chamas de uma aparatosa explosão. O que o meu lado racional não consegue muito bem processar, nos filmes e não só, leva-me - uma vez mais - a rir com uma abundância que chega a ser disparatada. 


Na verdade não cheguei a rir assim tanto com o filme que desencadeou a vontade de partilhar convosco este mergulho mais prolongado pela filmografia mais capaz de me provocar essa maravilhosa sensação. Contudo “Tuesday Never Comes” (obscuridade de 1992) é todo ele preenchido pelos aspectos imprevisíveis já referidos que me dão este prazer. Trata-se de um projecto de vaidade (egosploitation) realizado por Jason Holt (que também o protagoniza) que chega ao ponto de ser tão delirante, que desconfiamos se o crack que surge abundantemente em cena não seria mesmo real. “Tuesday Never Comes” é quase uma fonte de absurdo que não pára de fluir durante uma hora e meia, em que as cenas se amontoam de modo altamente extemporâneo e revelando toda uma série de excessos que fica perto de ser nauseante (sim, reconheço que pode haver algum masoquismo nestas preferências da cinefilia). Nada me faz crer que tenha sido criado com a menor intenção de provocar riso, mas a verdade é que preencheu grande parte dos requisitos referidos neste texto. Aqui fica o link perfeitamente legal para quem se quiser atrever: https://fawesome.tv/movies/10653590/tuesday-never-comes. Já que estamos nos links, aqui fica o que leva ao excelente canal experimental em que cacei “Tuesday never comes” enquanto passava em directo: https://www.intergalactic.fm/channels/mtv. Que extraordinária descoberta num ano que ainda agora começou. 


Nesta balança do que é feito para rir ou não (e colhendo outros exemplos mais fora do loop mainstream), “Mulheres traídas” acaba por ser um caso muito excepcional, em que eu não sei se a sua grande autora Maria José Silva incluiu a inesquecível cena do “mijão no sofá” com a intenção de provocar riso no público. No entanto toda a gente com que já vi “Mulheres traídas” ri abundantemente com essa cena. Mas “Mulheres traídas” é daquelas  obras-primas de outsider que tem uma grandeza e universalidade humana que estão acima dos géneros. É uma grande comédia, tal como é um grande drama, conforme a perspectiva de quem o vê. Todo o dia é ideal para recomendar “Mulheres Traídas”.


Existem também videoclipes (muitos) com o mesmo efeito hilariante, mas os videoclips tantas vezes são filmes curtíssimos. Portanto, tendo isto em mente, o formato em que os videoclipes eram exibidos quanto mais imprevisível fosse mais apetecível me pareceria. Eu vivi noites de verdadeiro êxtase a ver VH-1 Classic (onde tudo aparecia e as surpresas eram muitas) com as mais variadas pessoas (a dois e em grupo). Adorava aquilo. Hoje não sei como anda ou se sequer ainda está activo. A impressão que tenho é que a sua golden age foi há já muito tempo, da mesma maneira que acho que a era do cinema mais genuíno como “Tuesday Never Comes”, “Club Life” (1986) (outro autêntico que recomendo) e outras jóias ainda por descobrir ficou lá atrás. Continuemos a cavar. 

Comments

Popular posts from this blog

Se vou à praia dos betos, isso faz de mim o quê?

Divagações e apontamentos sobre “Xenonexo” I - Conan Osiris > Christopher Nolan

Tudo o que sei e tudo o que não sei sobre as X-Cetra