Desconfia dos teus ídolos (ou “esta segunda vida promoconceptual do Halloween começa a dar-me dores de cabeça...”)





Desconfio sempre do sagrado. Por mais que adore determinado artista, não sinto que isso deva anular a minha tendência natural para questionar quem sigo atentamente. Acredito aliás que devemos ser especialmente exigentes com quem mais admiramos, em vez de cair num deslumbramento que muitas vezes é só mesmo sinónimo de adormecimento (ou envelhecimento) do pensamento (estou a soar a Sam the Kid nesta frase...). Acho sempre alguma graça quando alguém decide dizer muito casualmente que “Todas as canções do David Bowie são excelentes” ou que os Clash foram brilhantes em tudo o que nos deixaram. Nem sequer tenho qualquer implicação com essas duas instituições, mas, se aprofundarmos um pouco a questão, rapidamente percebemos que talvez não seja bem assim. Se o Axl Rose tinha aquela t-shirt icónica com a figura de Cristo e a frase “Kill Your Idols”, eu nesta altura talvez devesse usar uma com o stencil do Halloween e a frase “Doubt your Idols” (“desconfia dos teus ídolos”).

 

E se desconfio ultimamente do que chega até nós com o nome do Halloween ou do seu aliás Original Kappa, principalmente através da sua conta de Instagram, é porque novos motivos surgem para isso acontecer e não porque fui desenterrá-los ao passado. O Halloween criou três álbuns de rap bastante capazes (sendo o primeiro deles, “Projecto Mary Witch”, um documento histórico do mais puro e vigoroso que este país conheceu) e cantou o seu próprio funeral num disco unplugged, que, mesmo sem me encher as medidas, também não me chateia. Agora o que me chateia (e cada vez mais) é esta segunda vida do Halloween (após ter anunciado o seu retiro no final de 2019) ser essencialmente feita de subproduto (temas claramente inferiores à média alta do Allen), vídeos promocionais algo aleatórios e desalinhados, e entrevistas, que, embora procurem parecer raras e especiais, já não são assim tão poucas. 

 

Quem me conhece provavelmente já sabe do respeito tremendo que tenho pelo contributo maior que o Allen teve no hip-hop português (já nem o imagino sem ele), contudo é principalmente por isso que me entristece ver esse diluído neste fluxo de novos conteúdos associados ao seu nome. Conteúdos esses cujo intuito e função ainda não consegui muito bem decifrar (o problema pode ser meu). Ajudem-me por favor a compreender se afinal existe ou não um novo disco com o nome de Original Kappa, ou o porquê destas “novas” faixas (uma delas, com alguma pretensão, sampla Bob Marley) em que a voz e letras do Halloween soam por vezes como se tivessem sido criadas por inteligência artificial (se é que não foram realmente). Devemos contentar-com esta sua segunda vida sobretudo críptica, vaporosa e conceptual da Bruxa? Se me aborrece, devo só mesmo optar por não seguir a conta do Halloween no Instagram? Nada disto me afectaria assim tanto se não banalizasse um pouco o nome do melhor rapper que já ouvi a disparar rimas na minha língua. Não posso dizer que me agrade muito ver o “output” actual associado ao Halloween alinhado com a capacidade enorme que o Instagram por si só já tem para provocar o tal “brain rot”, que nos desfaz aos poucos a cabeça. 

 

O que sinto ultimamente - com novas promos e excertos de faixas que nunca sei muito bem se escutarei na sua forma completa - é uma profunda desorientação em relação ao rumo de tudo isto e para onde aponta realmente. Se me dói, é porque adoro a obra acabada que conheço (“Mary Witch” e “A Árvore Kriminal” são dois dos discos mais presentes na minha vida). A minha esperança era poder reavaliar a minha relação com o Halloween escutando um novo disco, mesmo que fosse com o nome de Original Kappa. Vou perdendo essa esperança à medida que cresce este interminável teasing de meses que provavelmente é só mesmo isso (e altamente anti-climático e manipulador, já agora). O Halloween morreu no final de 2019 e agora o seu nome e “poeiras” servem sobretudo para alimentar as necessidades vorazes do algoritmo? Era bom haver um disco substancial com respostas no fundo deste corredor, mas já nem nisso acredito. 


















 

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