De Houston ao Regueirão dos Anjos: questões de ego e humildade
Lembro-me muitas vezes do ar perfeitamente sereno que o Iniesta (meio-campista histórico do Barcelona e da Seleção Espanhola) exibia ao ser entrevistado, ainda no relvado, logo após ter conquistado o Campeonato do Mundo de 2010, na África do Sul. A humildade na sua postura era de tal modo constatável, que mais parecia que o Iniesta tinha salvo o gato da vizinha, ao tirá-lo de uma qualquer árvore, em vez de ter conquistado um dos mais cobiçados troféus à face da terra. Alguém, ao vê-lo na televisão, podia simplesmente achar que ali estava um zé qualquer que tinha ido ali parar ao topo do mundo por acaso.
O controlo emocional que Iniesta mostrava na entrevista seria no fundo a extensão da segurança que demonstrava dentro de campo (enquanto grande jogador que era). Transmitia a sensação de uma pessoa coerente na postura dentro e fora do relvado, sem muito tempo para dar ao vedetismo ou à necessidade de auto-afirmação. Estava ali como parte da equipa e não para ser o rosto que serve de fachada à mesma (ao mesmo tempo que absorve toda a atenção). Naquela curta entrevista, Espanha oferecia uma vez mais uma valiosa lição, tal como tantas que nos tem dado na política internacional dos últimos anos. Nem sequer mantenho qualquer complexo de inferioridade perante Espanha (e acho que o nosso indie rock e songwriting é muito superior ao do pais vizinho), mas o tema veio a calhar nesta pequena digressão.
E veio a calhar porque no pólo inverso desta escala de cagança podemos sempre contar com Cristiano Ronaldo. Não vou agora discutir se é ou não legitimo que seja titular na seleção portuguesa, até porque me faltam as competências para isso. Contudo já vi mais do que o suficiente para perceber que Ronaldo, embora tenha qualidades desportivas excepcionais e indiscutíveis, é hoje em dia o símbolo mais flagrante de um dos piores defeitos do povo português: a sua tendência para favorecer o indivíduo ou procurar um qualquer record pessoal em vez de se focar nos objectivos do colectivo. Queremos ter o maior shopping de cristal da Europa ou receber, em Lisboa, o mais numeroso evento disto ou daquilo, como prova simbólica da nossa “grandeza”, mas já ninguém se lembra da última iniciativa que tivesse servido para nos elevar a todxs em geral.
Quem gere os destinos da selecção portuguesa parece alinhado com esta visão individualista das coisas e agora o que mais parece importar é o Ronaldo bater mais um record e que o mundo o veja a fazer isto ou aquilo. A façanha individual colocada à frente de tudo o resto. Mas voltando um pouco atrás e recuperando a questão do egocentrismo, recordo-me de como, em 2012, a oportunidade de actuar como comediante stand-up numa festa da Vice no Regueirão dos Anjos me tinha deixado o ego especialmente inchada. Um mero jornalista musical amador poder actuar no mesmo palco que Bro-X ou Glockenwise e acompanhado na bateria pela Maria Reis (heroína pessoal desde que me lembro) era, na altura, coisa para me roubar um pouco o sono, quando no fundo seria só mesmo um gajo a fazer más imitações da voz do Chris Cornell perante 250 pessoas. O inchaço no ego (e a inexperiência) fez com que as coisas não corressem muito bem. Precisava de ter sio mais Iniesta a salvar o gato da vizinha preso na árvore. Precisava de ter sido menos Ronaldo a achar-me no centro de tudo e melhor do mundo antes de o provar.
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